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Nem Choro Nem Vela Para Mim


TODAS AS COISAS DO MUNDO SÃO BELAS

 

 

 

Sorri, lê teus livros, ouve tuas músicas,

 

Que entre nós não há mistérios ou dúvidas

 

A serem desvendadas. Dança. Sorri.

 

Bebe o tom dourado e quente da tarde.

 

Que importa a vida, suas tantas verdades,

 

Quando, sei, concebe o sonho em ti?

 

Que importa a realidade se pode

 

Ler teus livros, ouvir tuas músicas,

 

Dançar, sorrir, beber a tarde, as dúvidas,

 

E ser feliz, e livre, e leve e clara,

 

Sem que nada te fira ou incomode?

 

E assim, como a mais órfã das estrelas,

 

Me ensina a volta ao bem e me revela,

 

No gosto azul de teu olhar, a certeza:

 

Todos os poemas são de tristeza.

 

Todas as coisas do mundo são belas.

 

 

 

PS - Não sei explicar muito bem. Mas gosto mesmo desse poema. E olhe que raramente gosto de meus poemas.



Escrito por Márcio Scheel às 21h45
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O NOME DISSO

Na última crônica publicada no site Congresso em Foco, A morte não precisa das cinzas do carnaval”, Marcelo Mirisola (que não carrega consigo apenas o mérito de ser um escritor de primeiríssima grandeza, mas que também está reinventando um gênero que diziam intocável – a crônica) põe em questão a banalidade da morte, da violência e, acima de tudo, da vida cotidiana, nesses tempos que Baudrillard, filósofo, sociólogo e semiólogo francês, chamou de hiper-real.

O que melhor caracteriza a literatura de Marcelo Mirisola não é sua irreverência dessacralizadora, em que a arte, a mídia e os ídolos de barro da cultura de massas se desintegram diante da ironia, do sarcasmo, da sátira menipéia que percorre seus escritos, mas sim sua capacidade crítica, sua visão desencantada e niilista, de um niilismo reativo, que faz da palavra um instrumento de transgressão dos valores (ou da falta deles) sociais, políticos e culturais estabelecidos.

Como cronista, Mirisola deixa entrever que as tão difundidas e massiçamente exploradas mazelas brasileiras, que nossos equívocos cotidianos, nossos enganos e imposturas, são incuráveis porque, de certa forma, se amalgamaram ao nosso próprio caráter – a ponto de não reconhecermos mais nossa face desolada no espelho dos dias. E é justamente esse olhar acurado para o tempo e o mundo em que se encontra inserido que faz de Marcelo Mirisola um escritor imprescindível.

Taí um trecho da referida crônica:

 [...]

 “Pobres, pobres mães. Que não choram mais o cadáver dos filhos, mas o defunto de uma época desconhecida e esquizofrênica. Aliás, é curioso notar que a única compatibilidade que existe entre a figura antiga do cadáver de narinas de algodão e os músculos adquiridos na academia de musculação é a pobreza da rima – e mais nada. O luto não serve mais para vestir o novo, há um descompasso e um pragmatismo gelado no ar. A morte não precisa mais das cinzas do carnaval. A morte perdeu a eloqüência, e perdeu a elegância.

 

Por isso que o filme Tropa de Elite fez e faz tanto sucesso. Ele anuncia que a oratória de Ruy Barbosa e o famigerado Estado de Direito simplesmente não existem para os lutadores de Jiu-Jitsu, nem para os funkeiros, muito menos para a “galera” da pedofilia no Orkut. O Brasil é um retrato na parede que não deixou nenhuma saudade. Carlos Drumonnd de Andrade não existe para quem tem menos de trinta anos, está desempregado e mora do lado de lá da Ponte João Dias. O lado de lá – desculpem o trocadilho – não está nem aí para Montesquieu. Ou melhor, Montesquieu vive do lado de lá, disfarçado de Mano Brown (mas essa é outra história...). Mas do que eu falava?

 

Ah, lembrei. De roupas brancas, carnaval e morte.

 

Vamos lá. As passeatas e os abraços no Parque do Ibirapuera e na Lagoa Rodrigues de Freitas, bem como os apelos por mais tolerância e as respectivas missas ecumênicas realizadas depois do massacre de cada semana, são tão patéticos quanto as madames escandalizadas com as criancinhas que apodrecem no semáforo do shopping. O grito e o choro das mães e a “indignação” das autoridades são tão inócuos e paquidérmicos quanto o trânsito congestionado nas grandes cidades. A fantasia tropical e o azul do céu foram subtraídos pela realidade excludente de quem luta pela sobrevivência – não importa se o gueto é uma boate em Ipanema ou uma ONG no Jardim Pantanal.

 

Hoje em dia, no Brasil, até o fato de se “propor” soluções é recorrência de atraso. Não deu certo antes, e agora – lamento dizer – é tarde demais. O fato de aumentar o efetivo de policiais nas ruas, ou construir novos presídios de segurança máxima, é algo tão primário e agressivo quanto a violência que se pretende combater. Se levarmos em conta a ação e a reação dos envolvidos na matança do dia-a-dia (incluam-se todos os meios de matar: Igrejas, programa do Faustão e congêneres, clínicas de cirurgia plástica, clínicas de aborto, Parque da Mônica, etc ); bem, se levarmos em conta a aniquilação daquilo que um dia chamamos de “humano”, vai ficar difícil de encontrar um escaninho que sirva para tipificar este ou aquele crime: até a noção do que é crime está ultrapassada. Sabem por quê? Simples: porque quem morreu podia perfeitamente ter matado.

 

O nome disso – repito – é guerra. Não há câmera de vigilância, nem condomínio fechado, nem qualquer tipo de monitoramento e/ou sistema de segurança que garanta a tranqüilidade... dos culpados.”

[...]

O nome disso é, antes de tudo, horror e impotência, vergonha e mau-caratismo. Vivemos num país em que predomina a canalhocracia, em que o que está em jogo é a locupletação, o enriquecimento fácil, a ascensão social, política, econômica ou cultural a qualquer custo. Um país em que, feito gados, aceitamos o destino que se manifesta e impõe a todo ruminante – o abate. E de nada adianta mugir.

 

Mirisola que nos valha!!!

 



Escrito por Márcio Scheel às 02h08
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jukebox

 

poucas coisas no mundo

podem ser mais tristes

do que nina simone

cantando don’t you pay them no mind

 

quem sabe, talvez, um quarto vazio

os pulsos cortados

a falta de jeito para falar em orquídeas

radioterapia síndrome do pânico

ou crepúsculos derrotados no outono

 

(People laugh

each time they see us walking by

and their whispering just make

You feel like you wanna cry)

 

poucas coisas no mundo

podem ser mais tristes

do que a música

que a gente assobia madrugada adentro

esperando o primeiro ônibus

para lugar nenhum

uma velha ruína

um tipo secreto de esquecimento

 

quem sabe, talvez, uma mulher sem nome

um desejo sem rosto ou destino

uma alegria de porre

um sonho desbotado no fundo dos olhos

a vida suspensa

entre o dedo e o gatilho

 

(A world all our own, keep on then,

keep on holdin on to me,

they'll learn in Time.

i really love you, so don't you pay em' no mind)

 

poucas coisas

mais tristes lentas desiludidas

do que as coisas

as palavras em desalinho

essa poesia impossível   

por trás de cada passo em falso

e a infelicidade quase que é uma outra maneira

de ser angustiadamente feliz

 

poucas coisas mais tristes

do que os sonhos borrados pela manhã...

bem, talvez um cego,

sentado sozinho,

num banco distante

de uma praia de nudismo

mas isso, com certeza,

a associação de cegos

não gosta de comentar

 



Escrito por Márcio Scheel às 20h44
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Fenomenologia da Urgência

Se um dia vamos rir de tudo isso*, por que não agora?

 

*Isso, estou a cada dia mais convencido, continua sendo a vida... a mesma, inelutável, besta, torta, irremediável, vida.



Escrito por Márcio Scheel às 01h29
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Das Coisas Que a Gente Acaba Perdendo

Foto: Maurício Simonetti

 

Hoje morreu José Agrippino de Paula, autor do grande Panamérica. Romance sem precedentes na literatura brasileira, talvez, com exceção feita às novelas de Campos de Carvalho, sobretudo A Lua Vem da Ásia e Vaca de Nariz Sutil. Tanto o Agrippino quanto o Campos de Carvalho criaram o que há de melhor em termos de uma literatura surrealista verdadeiramente brasileira, tão radical quanto os melhores poemas de Murilo Mendes ou os do suiço Blaise Cendrars quando esteve no Brasil no ínico do século XX.

Em comum, Agrippino e Campos de Carvalho ainda conservam o fato de serem dois ilustríssimo desconhecidos das academias, do público, dos trabalhos de pesquisa, do ensaísmo cultural dos segundos cadernos (isso ainda existe: ensaísmo cultural? segundos cadernos?). O Brasil precisa descobrir o Brasil. Nosso atraso cultural advém, antes de mais nada, de nossos olhos fechados, de nossa cegueira coletiva, de nosso deslumbre quase "primitivo" diante dos espelhos e quinquilharias que europeus e norte-americanos nos fazem engolir em doses cavalares. A FLIP - Feira Internacional de Paraty - ilustra bem a tese desse país desconhecido de si mesmo em que habitamos.

Enquanto festejam o que há de, supostamente, melhor no cenário literário internacional, os organizadores da festa ignoram essas sombras esquecidas - feito o Agrippino e o Campos de Carvalho - que deram tudo o que podiam de uma força criadora incomparável para conceber um projeto literário original - e brasileiro - digno desse nome. Agrippino morreu abandonado em Embu das Artes, sozinho e na mais indigna miséria (e antes que me questionem: não, não há misérias dignas, não!!!). Além da miséria material, do perrengue, da falta de dinheiro para necessidades elementares, o Agrippino teve de conviver com a miséria do esquecimento: que vem embalada na certeza de ter produzido uma obra radicalmente original que nunca, com raríssimas ressalvas, foi devidamente compreendida. Trata-se daquela velha idéia oswaldiana: o biscoito-fino para as massas, que um dia ainda haveria de ser digerido. Bobagem. De nossa elite superficial (ligada no axé do afoxé de uma subcultura iletrada) até nossas massas semi-alfabetizadas, Agrippinos e Campos de Carvalho estão e estarão sempre condenados ao esquecimento e à incompreensão. Inteligência, no Brasil, custa a própria vida. Não tenho dúvidas!

E a Folha de São Paulo, hoje, publicou - além de uma nota medíocre sobre a morte do Agrippino - a seguinte frase do Caetano Veloso:

"Antes do lançamento de qualquer uma das canções tropicalistas, tomei contato com "PanAmérica". O livro representava um gesto de tal radicalidade -e indo em direções que me interessavam abordar no âmbito do meu próprio trabalho- que quase inibiu por completo meus movimentos"

E pensar que, quase que para a nossa sorte, o Agrippino por pouco não silenciou o Caetano. Essas perdas, meu deus, são inestimáveis!!! Vale lembrar, por fim, que o Marião Bortolotto está na FLIP, mas que, é claro, ele está bastante além dessa pataquada pra inglês ver.



Escrito por Márcio Scheel às 13h21
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Lição de Pontaria

Notícias UOL

 

O que me preocupa é que eles sempre erram o alvo! Sempre!



Escrito por Márcio Scheel às 16h48
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Lição de Ontologia

 

 

Eu sou aquele que ensaiou

Seu último vôo secreto

Nas asas amorosas da noite.

 

(Pássaro Deserto Abismo

Manhã rasgada no despertador)

 



Escrito por Márcio Scheel às 16h44
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Lição de Geometria

 

 O caminho mais curto entre dois pontos é o atalho.



Escrito por Márcio Scheel às 14h38
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Descoberta

de repente a gente aprende a olhar para baixo

e tem a primeira vertigem

e sofre o primeiro sufoco

mas aí a gente se acostuma

e descobre o diálogo com os próprios sapatos.



Escrito por Márcio Scheel às 18h21
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Constatação Quase Metafísica

a tristeza

é uma mulher

que não se pinta demais

não se perfuma demais

e nem bebe demais

para nos esperar



Escrito por Márcio Scheel às 18h13
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Porque Eu Poderia Falar Em Sonhos Acordados na Janela

Eu tenho medo

Nem sempre

Nem todo dia

Mas eu tenho medo:

Medo de atravessar a rua,

De não ser mais poeta,

De tomar chuva

E morrer de pneumonia.

 

Eu tenho medo, porra!

Medo de não mudar o mundo.

De não dizer a dor,

De perder a voz,

De cair de joelhos,

De ensaiar a rendição

De nunca, mas nunca mesmo

Morrer de amor.

 

Eu tenho medo.

Esse medo viscoso, sabe,

Que se pega aos ossos

Como uma total desesperança?

Medo de andar de cabeça baixa

de olhar nos olhos

de sorrir sem jeito

e tropeçar no abismo.

 

Eu tenho medo, caralho!

Um medo sem nome

Tempo

Ou lugar.

O medo que dos que não entenderam

Dos que não aprenderam

Dos que não ouviram na voz delirada do último Xamã

O canto de regresso ao Lar.



Escrito por Márcio Scheel às 23h56
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Enquanto Isso, na Brasilônia...

Senador Renan Calheiros, em sessão transmitida pela TV Senado, como presidente da Casa, fazia um balanço dos trabalhos realizados ao longo do ano de 2006 naquele insigne templo da legislação brasileira (espero que nunca me levem à sério) quando, num determinado instante, ao comentar as emendas aprovadas em relação ao orçamento,  saiu-se com essa:

 

 

“...por um orçamento mais ético, mais transparente, menos imune à fraude e à corrupção.”

 

 

Gostaria imensamente de comentar, mas, como leitor confesso das fantasias psicanalíticas, sempre acreditei que o ato falho diz tudo. Embora esse, sinceramente, nem Freud explique.



Escrito por Márcio Scheel às 13h58
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Tratado das Coisas Vistas Aqui Debaixo - Continuação

Não suporto a tua distância que me arruína as certezas e me perde todos os caminhos. Do jeito que andam as coisas, periga me afastarem das aulas, me substituírem no departamento, me esquecerem como se esquecem as coisas inúteis, os trastes envelhecidos, a poeira nos desvãos da alma. Semana passada, depois de uma noite inteira bebendo sozinho numa espelunca de que sequer me lembro o nome, segui direto para as aulas. Sérgio deixou um recado dizendo que gostaria de falar comigo. Urgente. Entrei em sua sala: ampla, confortável, um pouco delicada demais, eu diria, com seus móveis antigos, uma tapeçaria na parede, algumas reproduções baratas de Van Gogh e Kandiski, este, confesso, insuportavelmente abstrato para o meu gosto, uma fraude, em suma. Kandiski pintava como uma criança idiota. Se duvidar, usava os dedos, como Basquiat, anos depois, outro idiota feito para o consumo de uma classe média fraudada e sem consolos, viciado em heroína e pintando puerilidades em muros nova-iorquinos, usando os dedos como quem brinca de aquarela nessas escolas experimentais para filhos imbecis de adultos ricos e presumíveis que não se envergonham de “gastar uma fortuna” com materiais reciclados e mensalidades extorsivas, tudo para ver se os pequenos gênios chegarão, um dia, a ser mais do que delinqüentes com diploma superior e direito a prisão diferenciada. A cada hora odeio e desprezo mais essa gente em que eu poderia ter me tornado, essa gente que desejavam que eu fosse: certo, digno, medíocre e previsível. Sérgio saiu de trás da mesa, caminhou alguns passos em minha direção, apoiou a mão em meu ombro e me perguntou se eu não achava melhor descansar um pouco, viajar, passar um tempo na casa de um de meus irmãos, encontrar pessoas diferentes, tentar te esquecer. Porque, se não a esquecer, isso ainda vai acabar contigo, ele disse, com os olhos ternos de um cretino convicto, à espera de minha ruína inevitável, de mais uma falha de caráter que pudesse me condenar definitivamente. O mais estranho é que ainda somos amigos, que ainda o respeito, que o encaro em silêncio, como se consentisse com a merda de ideal de superação e auto-centramento, de busca objetivada, de determinação incondicional que possa me fazer sair desse buraco nojento e sem perspectivas em que me encontro. Ele fala como um bispo empedernido em um canal de TV que atravessa a madrugada e desencaminha ainda mais meus passos vazios de ti. Meu deus: a única coisa que peço, todos os dias, de dentro de meu ceticismo ancestral e demoníaco, é uma chance para te esquecer. Mas ele não sabe disso. Ele não sabe como é difícil pôr a perder, para sempre, a imagem de alguém que amamos e, por covardia e desilusão, acabamos por abandonar. Afinal, já faz mais de um ano que nos separamos, fiz minhas escolhas, perturbei para sempre teus caminhos, sendas, veredas e atalhos, estraguei a única coisa verdadeiramente importante que construí em uma vida toda e já não faz sentido afundar como um mendigo desgraçado implorando uma esmola que não virá. Nunca. Ele diz que se as coisas continuarem como estão não haverá outra escolha que não seja me afastar definitivamente do quadro de professores. Sabe, ele afirma serenamente com seu jeito de pregador bem-sucedido, de self-made man que me dá engulhos, que me desperta um impulso homicida quase, quando tenho ganas de defender a tortura senegalesa, é inútil essa adesão ao passado, essa prisão sem grades que você ergue a cada dia, e na qual se desola mais e mais, bêbado, andando sozinho madrugada afora, chegando atrasado para as aulas, muitas vezes nem sequer se dá ao luxo de tomar um banho, pentear-se, trocar a roupa de dois ou três dias que só afirma o quando perdeu em dignidade e amor-próprio nesses últimos anos. Se a decisão ainda tivesse partido dela, se ela tivesse te abandonado, deixando um bilhete na geladeira ou um recado na secretária-eletrônica, se fosse ela que tivesse pedido o divórcio, saído de casa, ignorado sua vida e seus princípios, seu amor e sua entrega, transigiria diante do seu sofrimento, diante do abandono, do horror, desse sentimento doloroso de uma perda em vida, inconsolável, mas não é o caso. Eu o encaro sem muitas convicções e disparo: The empty-handed painter from your streets Is drawing crazy patterns on your sheets. This sky, too, is folding under you And it's all over now, Baby Blue. É assim que me sinto. Ele balança a cabeça, fica um minuto em silêncio, os gestos suspensos no ar, dramático e canastrão como um ator de novela das oito, e acaba me perguntando, incisivo, mas que porra de merda é essa? Tenho vontade de sorrir, simplesmente, mas estou cansado demais para isso. Cansado e desiludido demais. Todo sorriso é um gesto de inútil complacência, para com o outro e consigo mesmo.



Escrito por Márcio Scheel às 21h55
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Tratado das Coisas Vistas Daqui Debaixo

Sabe, eu preciso te esquecer como se esquecem essas coisas velhas e desusadas, que vão juntando poeira no sótão escuro e mofado da memória, onde guardamos tudo o que fere, incomoda, atravanca os caminhos, os passos, os gestos vacilantes e cambaios. Eu preciso te esquecer antes que sejas parte dessa loucura que me persegue diariamente, sem tréguas, há quanto tempo mesmo? não sei, sei, apenas, que preciso, que é absoluta e inadiavelmente necessário te esquecer caso queria juntar os pedaços de que fiz minha vida, recomeçar, recuperar alguma dignidade que, penso, nunca, nunca tive. Esquecer o teu corpo sob o lençol, pedindo um pouco mais da ternura que eu ensaiava de forma canhestra quase, e teus cabelos molhados, saindo do banho, e teus seios pequenos, de contornos leves, e a marca da calcinha desenhada na pele clara, e tuas coxas grossas, que me abrigava em noites sempre incertas, em madrugadas insones, quando eu chegava ainda mais desiludido do mundo, das coisas, da vida mesma a que me dera e que, estranho dizer, eu nunca sonhara. Preciso te esquecer como, a uma altura dessas, deves lutar para me apagar definitivamente das tuas mais perturbadas e ressentidas lembranças. Preciso te esquecer porque machuca, fere e incomoda não poder encarar o sorriso idiota do outro, no espelho, sem uma ânsia bêbada, sem uma espécie de nojo indistinto que me sobe à garganta e amarga os dias, e turva tudo de uma névoa cinza que vai esfumaçando o ar, recendendo a uma incompreensão cada vez mais gutural, infeliz, dolorosa. Preciso te esquecer, e o contornos de tuas nádegas, e o desenho da tua xota sob a calcinha de algodão, em tardes sufocadas de domingo, quando sentavas sobre o tapete da sala e pintavas as unhas com lentidão e delicadeza, estudando o desejo em meus olhos, no movimento de minhas mãos, entre as pernas, escapando rijo pela bermuda surrada de vadiar pela casa sem destino ou lugar. Preciso te esquecer para que tudo não se pareça com essa inadiável morte diária, velada entre um bar e outro, no corpo desabrigado de uma mulher sem nome ou história, pintada em excesso, vulgar e constrangedora como costumam ser as putas que desfilam pela Praça Quinze, solitárias e aquáticas no passeio noturno ao qual se entregam sem convicção ou certezas. A morte diária tem o gosto álacre de uma saudade de porre, vomitada no vaso antes de ligar o chuveiro e afundar num banho gelado. Se continuar assim, dormindo no chão frio do banheiro, a água escorrendo devagar pelo meus cabelos, encharcando o corpo todo, acabo morrendo de uma porra de hipotermina num país de quarentas graus à sombra. Que merda é essa que vamos fazendo de nossas vidas dia após dia, incansavelmente, como quem se rende, prostrado, de joelhos, pronto para beijar a lona no décimo segundo assalto? Quem disse que resistirmos tanto? Comprimidos: paracetamol, ansiolíticos, anti-depressivos. Gim-tônica, uísque e cigarros. O que houve depois de ti? Além desse vazio que está em cada quarto, em cada móvel, nas gavetas do armário, nesse buraco aberto ao peito à força de uma renúncia que, só agora entendo, era uma outra forma de amor, paixão, ternura. Uma forma de amor envolta em sombras, diluída em angústias e incertezas, esquadrinhada como o projeto de um sonho que se esfuma com o dia, o despertador tocando, um sol ensandecido arrebentando em azul a janela derrotada da sala. Ainda durmo no sofá, mas agora já não se trata de uma distração casual, um esquecimento, o cansaço acumulado de tantas horas silenciosas e alheias de trabalho, agora é sempre o mesmo sono pesado, denso, alcoolizado, que se perde na bruma de sentidos que vagueiam de um extremo a outro de uma vida derrotada e infeliz, como costumam ser todas as vidas, se a gente for ver de perto. A verdade é que não suporto a tua ausência gravada em relevo na lembrança, que tem o gosto da tua pele depois do banho, o cheiro dos teus cabelos molhados, do perfume que encontrava entre as tuas coxas e que me ligava desesperadamente a tudo o que recende a ti.



Escrito por Márcio Scheel às 14h06
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Flávio Catalano e Seus Diálogos Impertinentes

Flávio Catalano é um brother de fé que encontrei nesses caminhos sem destino dessa vida. Jornalista, neurastênico, neurótico e mau humorado, feito eu, às vezes... Um cara tentando fazer com que essa existência de todos os dias, da qual não conseguimos nos livrar nem evitar, seja, quem sabe, um pouco mais leve... Nos tornamos amigos de bar, vodca e grandes papos madrugada adentro... Ele tem um texto bacana, umas sacadas legais e um humor cáustico invejável... O blog dele tá linkado aí ao lado... Dia desses, ele saiu com esse diálogo pra lá de impertinente:

 

- Que isso?
- Que ta tocando?
- ... é... que isso?
- Louis Armstrong, por quê?
- Há, sei lá... vamo ouvir isso, agora?
- ... ué... é música...
- Não... isso é um cara tocando corneta...
- Trompete! Tocando trompete!
- ... que seja, meu amor... trompete...
- ... e você acha o som ruim?
- ... irritante... esse barulho dessa corneta me tira a concentração...
- .. pára com isso... primeiro que é trompete, segundo que jazz não é irritante!
- Nossa, como você é grosso!
- Nossa, como você é insensível!
- Se fosse insensível, não ouviria esse barulho dessa corneta...
- ...Trompete, porra, trompete!
- Que seja, trompete, seu grosso!
- Enfim... quer que eu tire a música?
- ...quero... amor... me tira a concentração...
- E deixa sem música?
- Não... coloca Jack Johnson...
- ...
- Que foi?
- Nada, vou colocar...
- Te amo...
- Eu também...
- Mesmo eu odiando a música da corneta...?
- Nossa... vai tomar no cú...

 

Demais isso... Corneta é foda!!!

 

 



Escrito por Márcio Scheel às 10h48
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