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Nem Choro Nem Vela Para Mim


Movimentos Simulados (ou Breve Espaço Entre o Sonho e a Dança)

Ana Morena, bailadora.

                                              Para Elaine Lêdra, a Lê Ballerina, em seu aniversário.  

De minha parte, sempre fui apaixonado por bailarinas do municipal.

 

(E ela, por acaso, era bailarina do municipal).

 

Usava, inclusive, aquela saia rosa, engraçada, que deixa à mostra o collant branco, o contorno das pernas e a silhueta dos quadris.

Tenho, cá pra mim, que as mulheres podem ser divididas entre as que são e as que não são bailarinas do municipal.

Um dia, amei por exatas duas horas

 

- que também podem ser uma vida toda, quem sabe, afinal, o tempo não é nada e não sabe a esquecimento -

 

uma bailarina flamenca.

 

Ali, sozinha, se bailarinando em solilóquio, alheia a amores ou ódios, afeições ou desesperos que pudesse motivar nas almas mais desavisadas; se bailarinando, livre, como se sonhasse, e tudo se resumia à terna violência dos passos, a uma urgência física, um desejo que não poderia nunca ser saciado.

 

(Alma em breve explodindo).

 

            E eu

 

- algo impreciso e vago, entre sentimental e canastrão -

 

sonhava cenas líricas, idílios impossíveis, um amorzinho Roberto Carlos, enquanto ela

 

girava,

girava,

girava,

prefixada no espelho insondável da memória em dissipação.

 

(continua)

 



Escrito por Márcio Scheel às 12h42
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De minha parte, poderia perfeitamente haver apenas bailarinas do municipal, ou essa bailadora andaluza, num vestido negro de gala, desafiando os limites da imaginação, aquém de todos os abismos em que se precipita a alma, essa estranha.

            E ela giragirando num turbilhão de estrelas, inocente aos cordéis invisíveis que manipulam o sonho e dão um pretenso sentido à vida.

 

(Existindo sem palavras. Crente. Certa e exata como um dia sem auroras.).

 

Crente só do que é musica, precisão de gestos, irrefreável corpo em movimento.

 

            Que importa, ora ou outra, a música pare, os gestos se percam, cesse o movimento?

Não houve, nesse interstício, uma difusa e vaga afirmação de realidade?

Não houve uma bailadora giragirando sobre si, violando desejos, sugerindo um tesão antes do tesão, se gravando em negro no centro de um palco imaginário aberto no fundo bêbado das retinas?

Não houve um lugar que era meu, uns passos que eram dela e um caminho que trilharam em mim?

 

            De repente, ela me pareceu a última e mais perfeita forma da paixão.  

 



Escrito por Márcio Scheel às 12h41
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