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Tratado das Coisas Vistas Daqui Debaixo
Sabe, eu preciso te esquecer como se esquecem essas coisas velhas e desusadas, que vão juntando poeira no sótão escuro e mofado da memória, onde guardamos tudo o que fere, incomoda, atravanca os caminhos, os passos, os gestos vacilantes e cambaios. Eu preciso te esquecer antes que sejas parte dessa loucura que me persegue diariamente, sem tréguas, há quanto tempo mesmo? não sei, sei, apenas, que preciso, que é absoluta e inadiavelmente necessário te esquecer caso queria juntar os pedaços de que fiz minha vida, recomeçar, recuperar alguma dignidade que, penso, nunca, nunca tive. Esquecer o teu corpo sob o lençol, pedindo um pouco mais da ternura que eu ensaiava de forma canhestra quase, e teus cabelos molhados, saindo do banho, e teus seios pequenos, de contornos leves, e a marca da calcinha desenhada na pele clara, e tuas coxas grossas, que me abrigava em noites sempre incertas, em madrugadas insones, quando eu chegava ainda mais desiludido do mundo, das coisas, da vida mesma a que me dera e que, estranho dizer, eu nunca sonhara. Preciso te esquecer como, a uma altura dessas, deves lutar para me apagar definitivamente das tuas mais perturbadas e ressentidas lembranças. Preciso te esquecer porque machuca, fere e incomoda não poder encarar o sorriso idiota do outro, no espelho, sem uma ânsia bêbada, sem uma espécie de nojo indistinto que me sobe à garganta e amarga os dias, e turva tudo de uma névoa cinza que vai esfumaçando o ar, recendendo a uma incompreensão cada vez mais gutural, infeliz, dolorosa. Preciso te esquecer, e o contornos de tuas nádegas, e o desenho da tua xota sob a calcinha de algodão, em tardes sufocadas de domingo, quando sentavas sobre o tapete da sala e pintavas as unhas com lentidão e delicadeza, estudando o desejo em meus olhos, no movimento de minhas mãos, entre as pernas, escapando rijo pela bermuda surrada de vadiar pela casa sem destino ou lugar. Preciso te esquecer para que tudo não se pareça com essa inadiável morte diária, velada entre um bar e outro, no corpo desabrigado de uma mulher sem nome ou história, pintada em excesso, vulgar e constrangedora como costumam ser as putas que desfilam pela Praça Quinze, solitárias e aquáticas no passeio noturno ao qual se entregam sem convicção ou certezas. A morte diária tem o gosto álacre de uma saudade de porre, vomitada no vaso antes de ligar o chuveiro e afundar num banho gelado. Se continuar assim, dormindo no chão frio do banheiro, a água escorrendo devagar pelo meus cabelos, encharcando o corpo todo, acabo morrendo de uma porra de hipotermina num país de quarentas graus à sombra. Que merda é essa que vamos fazendo de nossas vidas dia após dia, incansavelmente, como quem se rende, prostrado, de joelhos, pronto para beijar a lona no décimo segundo assalto? Quem disse que resistirmos tanto? Comprimidos: paracetamol, ansiolíticos, anti-depressivos. Gim-tônica, uísque e cigarros. O que houve depois de ti? Além desse vazio que está em cada quarto, em cada móvel, nas gavetas do armário, nesse buraco aberto ao peito à força de uma renúncia que, só agora entendo, era uma outra forma de amor, paixão, ternura. Uma forma de amor envolta em sombras, diluída em angústias e incertezas, esquadrinhada como o projeto de um sonho que se esfuma com o dia, o despertador tocando, um sol ensandecido arrebentando em azul a janela derrotada da sala. Ainda durmo no sofá, mas agora já não se trata de uma distração casual, um esquecimento, o cansaço acumulado de tantas horas silenciosas e alheias de trabalho, agora é sempre o mesmo sono pesado, denso, alcoolizado, que se perde na bruma de sentidos que vagueiam de um extremo a outro de uma vida derrotada e infeliz, como costumam ser todas as vidas, se a gente for ver de perto. A verdade é que não suporto a tua ausência gravada em relevo na lembrança, que tem o gosto da tua pele depois do banho, o cheiro dos teus cabelos molhados, do perfume que encontrava entre as tuas coxas e que me ligava desesperadamente a tudo o que recende a ti.
Escrito por Márcio Scheel às 14h06
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