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Nem Choro Nem Vela Para Mim


Tratado das Coisas Vistas Aqui Debaixo - Continuação

Não suporto a tua distância que me arruína as certezas e me perde todos os caminhos. Do jeito que andam as coisas, periga me afastarem das aulas, me substituírem no departamento, me esquecerem como se esquecem as coisas inúteis, os trastes envelhecidos, a poeira nos desvãos da alma. Semana passada, depois de uma noite inteira bebendo sozinho numa espelunca de que sequer me lembro o nome, segui direto para as aulas. Sérgio deixou um recado dizendo que gostaria de falar comigo. Urgente. Entrei em sua sala: ampla, confortável, um pouco delicada demais, eu diria, com seus móveis antigos, uma tapeçaria na parede, algumas reproduções baratas de Van Gogh e Kandiski, este, confesso, insuportavelmente abstrato para o meu gosto, uma fraude, em suma. Kandiski pintava como uma criança idiota. Se duvidar, usava os dedos, como Basquiat, anos depois, outro idiota feito para o consumo de uma classe média fraudada e sem consolos, viciado em heroína e pintando puerilidades em muros nova-iorquinos, usando os dedos como quem brinca de aquarela nessas escolas experimentais para filhos imbecis de adultos ricos e presumíveis que não se envergonham de “gastar uma fortuna” com materiais reciclados e mensalidades extorsivas, tudo para ver se os pequenos gênios chegarão, um dia, a ser mais do que delinqüentes com diploma superior e direito a prisão diferenciada. A cada hora odeio e desprezo mais essa gente em que eu poderia ter me tornado, essa gente que desejavam que eu fosse: certo, digno, medíocre e previsível. Sérgio saiu de trás da mesa, caminhou alguns passos em minha direção, apoiou a mão em meu ombro e me perguntou se eu não achava melhor descansar um pouco, viajar, passar um tempo na casa de um de meus irmãos, encontrar pessoas diferentes, tentar te esquecer. Porque, se não a esquecer, isso ainda vai acabar contigo, ele disse, com os olhos ternos de um cretino convicto, à espera de minha ruína inevitável, de mais uma falha de caráter que pudesse me condenar definitivamente. O mais estranho é que ainda somos amigos, que ainda o respeito, que o encaro em silêncio, como se consentisse com a merda de ideal de superação e auto-centramento, de busca objetivada, de determinação incondicional que possa me fazer sair desse buraco nojento e sem perspectivas em que me encontro. Ele fala como um bispo empedernido em um canal de TV que atravessa a madrugada e desencaminha ainda mais meus passos vazios de ti. Meu deus: a única coisa que peço, todos os dias, de dentro de meu ceticismo ancestral e demoníaco, é uma chance para te esquecer. Mas ele não sabe disso. Ele não sabe como é difícil pôr a perder, para sempre, a imagem de alguém que amamos e, por covardia e desilusão, acabamos por abandonar. Afinal, já faz mais de um ano que nos separamos, fiz minhas escolhas, perturbei para sempre teus caminhos, sendas, veredas e atalhos, estraguei a única coisa verdadeiramente importante que construí em uma vida toda e já não faz sentido afundar como um mendigo desgraçado implorando uma esmola que não virá. Nunca. Ele diz que se as coisas continuarem como estão não haverá outra escolha que não seja me afastar definitivamente do quadro de professores. Sabe, ele afirma serenamente com seu jeito de pregador bem-sucedido, de self-made man que me dá engulhos, que me desperta um impulso homicida quase, quando tenho ganas de defender a tortura senegalesa, é inútil essa adesão ao passado, essa prisão sem grades que você ergue a cada dia, e na qual se desola mais e mais, bêbado, andando sozinho madrugada afora, chegando atrasado para as aulas, muitas vezes nem sequer se dá ao luxo de tomar um banho, pentear-se, trocar a roupa de dois ou três dias que só afirma o quando perdeu em dignidade e amor-próprio nesses últimos anos. Se a decisão ainda tivesse partido dela, se ela tivesse te abandonado, deixando um bilhete na geladeira ou um recado na secretária-eletrônica, se fosse ela que tivesse pedido o divórcio, saído de casa, ignorado sua vida e seus princípios, seu amor e sua entrega, transigiria diante do seu sofrimento, diante do abandono, do horror, desse sentimento doloroso de uma perda em vida, inconsolável, mas não é o caso. Eu o encaro sem muitas convicções e disparo: The empty-handed painter from your streets Is drawing crazy patterns on your sheets. This sky, too, is folding under you And it's all over now, Baby Blue. É assim que me sinto. Ele balança a cabeça, fica um minuto em silêncio, os gestos suspensos no ar, dramático e canastrão como um ator de novela das oito, e acaba me perguntando, incisivo, mas que porra de merda é essa? Tenho vontade de sorrir, simplesmente, mas estou cansado demais para isso. Cansado e desiludido demais. Todo sorriso é um gesto de inútil complacência, para com o outro e consigo mesmo.



Escrito por Márcio Scheel às 21h55
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