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Das Coisas Que a Gente Acaba Perdendo

Foto: Maurício Simonetti
Hoje morreu José Agrippino de Paula, autor do grande Panamérica. Romance sem precedentes na literatura brasileira, talvez, com exceção feita às novelas de Campos de Carvalho, sobretudo A Lua Vem da Ásia e Vaca de Nariz Sutil. Tanto o Agrippino quanto o Campos de Carvalho criaram o que há de melhor em termos de uma literatura surrealista verdadeiramente brasileira, tão radical quanto os melhores poemas de Murilo Mendes ou os do suiço Blaise Cendrars quando esteve no Brasil no ínico do século XX.
Em comum, Agrippino e Campos de Carvalho ainda conservam o fato de serem dois ilustríssimo desconhecidos das academias, do público, dos trabalhos de pesquisa, do ensaísmo cultural dos segundos cadernos (isso ainda existe: ensaísmo cultural? segundos cadernos?). O Brasil precisa descobrir o Brasil. Nosso atraso cultural advém, antes de mais nada, de nossos olhos fechados, de nossa cegueira coletiva, de nosso deslumbre quase "primitivo" diante dos espelhos e quinquilharias que europeus e norte-americanos nos fazem engolir em doses cavalares. A FLIP - Feira Internacional de Paraty - ilustra bem a tese desse país desconhecido de si mesmo em que habitamos.
Enquanto festejam o que há de, supostamente, melhor no cenário literário internacional, os organizadores da festa ignoram essas sombras esquecidas - feito o Agrippino e o Campos de Carvalho - que deram tudo o que podiam de uma força criadora incomparável para conceber um projeto literário original - e brasileiro - digno desse nome. Agrippino morreu abandonado em Embu das Artes, sozinho e na mais indigna miséria (e antes que me questionem: não, não há misérias dignas, não!!!). Além da miséria material, do perrengue, da falta de dinheiro para necessidades elementares, o Agrippino teve de conviver com a miséria do esquecimento: que vem embalada na certeza de ter produzido uma obra radicalmente original que nunca, com raríssimas ressalvas, foi devidamente compreendida. Trata-se daquela velha idéia oswaldiana: o biscoito-fino para as massas, que um dia ainda haveria de ser digerido. Bobagem. De nossa elite superficial (ligada no axé do afoxé de uma subcultura iletrada) até nossas massas semi-alfabetizadas, Agrippinos e Campos de Carvalho estão e estarão sempre condenados ao esquecimento e à incompreensão. Inteligência, no Brasil, custa a própria vida. Não tenho dúvidas!
E a Folha de São Paulo, hoje, publicou - além de uma nota medíocre sobre a morte do Agrippino - a seguinte frase do Caetano Veloso:
"Antes do lançamento de qualquer uma das canções tropicalistas, tomei contato com "PanAmérica". O livro representava um gesto de tal radicalidade -e indo em direções que me interessavam abordar no âmbito do meu próprio trabalho- que quase inibiu por completo meus movimentos"
E pensar que, quase que para a nossa sorte, o Agrippino por pouco não silenciou o Caetano. Essas perdas, meu deus, são inestimáveis!!! Vale lembrar, por fim, que o Marião Bortolotto está na FLIP, mas que, é claro, ele está bastante além dessa pataquada pra inglês ver.
Escrito por Márcio Scheel às 13h21
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