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O NOME DISSO
Na última crônica publicada no site Congresso em Foco, “A morte não precisa das cinzas do carnaval”, Marcelo Mirisola (que não carrega consigo apenas o mérito de ser um escritor de primeiríssima grandeza, mas que também está reinventando um gênero que diziam intocável – a crônica) põe em questão a banalidade da morte, da violência e, acima de tudo, da vida cotidiana, nesses tempos que Baudrillard, filósofo, sociólogo e semiólogo francês, chamou de hiper-real.
O que melhor caracteriza a literatura de Marcelo Mirisola não é sua irreverência dessacralizadora, em que a arte, a mídia e os ídolos de barro da cultura de massas se desintegram diante da ironia, do sarcasmo, da sátira menipéia que percorre seus escritos, mas sim sua capacidade crítica, sua visão desencantada e niilista, de um niilismo reativo, que faz da palavra um instrumento de transgressão dos valores (ou da falta deles) sociais, políticos e culturais estabelecidos.
Como cronista, Mirisola deixa entrever que as tão difundidas e massiçamente exploradas mazelas brasileiras, que nossos equívocos cotidianos, nossos enganos e imposturas, são incuráveis porque, de certa forma, se amalgamaram ao nosso próprio caráter – a ponto de não reconhecermos mais nossa face desolada no espelho dos dias. E é justamente esse olhar acurado para o tempo e o mundo em que se encontra inserido que faz de Marcelo Mirisola um escritor imprescindível.
Taí um trecho da referida crônica:
[...]
“Pobres, pobres mães. Que não choram mais o cadáver dos filhos, mas o defunto de uma época desconhecida e esquizofrênica. Aliás, é curioso notar que a única compatibilidade que existe entre a figura antiga do cadáver de narinas de algodão e os músculos adquiridos na academia de musculação é a pobreza da rima – e mais nada. O luto não serve mais para vestir o novo, há um descompasso e um pragmatismo gelado no ar. A morte não precisa mais das cinzas do carnaval. A morte perdeu a eloqüência, e perdeu a elegância.
Por isso que o filme Tropa de Elite fez e faz tanto sucesso. Ele anuncia que a oratória de Ruy Barbosa e o famigerado Estado de Direito simplesmente não existem para os lutadores de Jiu-Jitsu, nem para os funkeiros, muito menos para a “galera” da pedofilia no Orkut. O Brasil é um retrato na parede que não deixou nenhuma saudade. Carlos Drumonnd de Andrade não existe para quem tem menos de trinta anos, está desempregado e mora do lado de lá da Ponte João Dias. O lado de lá – desculpem o trocadilho – não está nem aí para Montesquieu. Ou melhor, Montesquieu vive do lado de lá, disfarçado de Mano Brown (mas essa é outra história...). Mas do que eu falava?
Ah, lembrei. De roupas brancas, carnaval e morte.
Vamos lá. As passeatas e os abraços no Parque do Ibirapuera e na Lagoa Rodrigues de Freitas, bem como os apelos por mais tolerância e as respectivas missas ecumênicas realizadas depois do massacre de cada semana, são tão patéticos quanto as madames escandalizadas com as criancinhas que apodrecem no semáforo do shopping. O grito e o choro das mães e a “indignação” das autoridades são tão inócuos e paquidérmicos quanto o trânsito congestionado nas grandes cidades. A fantasia tropical e o azul do céu foram subtraídos pela realidade excludente de quem luta pela sobrevivência – não importa se o gueto é uma boate em Ipanema ou uma ONG no Jardim Pantanal.
Hoje em dia, no Brasil, até o fato de se “propor” soluções é recorrência de atraso. Não deu certo antes, e agora – lamento dizer – é tarde demais. O fato de aumentar o efetivo de policiais nas ruas, ou construir novos presídios de segurança máxima, é algo tão primário e agressivo quanto a violência que se pretende combater. Se levarmos em conta a ação e a reação dos envolvidos na matança do dia-a-dia (incluam-se todos os meios de matar: Igrejas, programa do Faustão e congêneres, clínicas de cirurgia plástica, clínicas de aborto, Parque da Mônica, etc ); bem, se levarmos em conta a aniquilação daquilo que um dia chamamos de “humano”, vai ficar difícil de encontrar um escaninho que sirva para tipificar este ou aquele crime: até a noção do que é crime está ultrapassada. Sabem por quê? Simples: porque quem morreu podia perfeitamente ter matado.
O nome disso – repito – é guerra. Não há câmera de vigilância, nem condomínio fechado, nem qualquer tipo de monitoramento e/ou sistema de segurança que garanta a tranqüilidade... dos culpados.”
[...]
O nome disso é, antes de tudo, horror e impotência, vergonha e mau-caratismo. Vivemos num país em que predomina a canalhocracia, em que o que está em jogo é a locupletação, o enriquecimento fácil, a ascensão social, política, econômica ou cultural a qualquer custo. Um país em que, feito gados, aceitamos o destino que se manifesta e impõe a todo ruminante – o abate. E de nada adianta mugir.
Mirisola que nos valha!!!
Escrito por Márcio Scheel às 02h08
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